BLOGS – A ORIGINALIDADE FAZ A DIFERENÇA

– André L. Soares – 24.09.2009 –

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Texto bem escrito é algo maravilhoso: gera reflexão. Hoje esbarrei em um, da Márcia Filósofa, do blog ‘Menina Virgem’, intitulado ‘A onda do blogueiro marionete’. Motivado por esse trabalho – na humilde condição de debatedor –, acrescento minha visão ao raciocínio, referente à liberdade de expressão e uso democrático dos blogs.

O texto da ‘menina virgem’ se constitui amplo convite à originalidade. Aqui mesmo, no ‘Doce de Fel’, já invoquei – mais de uma vez – o fim da mesmice, por acreditar que todos podem ser criativos. Esse debate ainda se faz necessário.

Eu sei: esperar que todo blogueiro tenha responsabilidade pela notícia que veicula equivale a querer o fim da fofoca. Espírito de liderança, capacidade de raciocínio e redação própria são – infelizmente – dons de poucos. Na Internet, as teclas ‘Control+C’ e ‘Control+V’ irão satisfazer, ainda por décadas, os pobres de espírito.

Mas por que é tão difícil, para grande parte dos blogueiros, escrever com originalidade? Para ter opinião coerente, não é preciso total domínio da língua formal ou ler mil livros. Pessoas simples, de pouca formação, também têm capacidade de se expressar. Conheço algumas que o fazem com extrema eficácia, apenas por saberem olhar o mundo ao redor.

Nos blogs, erro comum é abordar tema sobre o qual o blogueiro não possui vivência. É melhor falar do que está próximo. Aqui, numa das postagens mais lidas, falei do conflito entre turistas e ambulantes em minha cidade (A Última Fronteira da Honestidade). Em outra ocasião, citei abusos da telefonia (A Oi Está Cobrando Até Por Chamada Não Atendida). Não usei ‘academicismo’, nem falei sobre o intangível. Os comentários mostram que as pessoas se identificaram com as abordagens.

No entanto, o brasileiro – formado ou não – é, quase sempre, alienado. Não pensa por si mesmo, nem percebe, minimamente, o mundo a sua volta. Não bastasse isso, toma a televisão como principal fonte. A ‘tevê’ dá informação pronta, unilateral, sem interação, reforçada pelo ‘objeto construído’ (quando a notícia ganha força, não pelo conteúdo, mas pelo valor conferido previamente à mídia que a propaga – daí que, se ditas no ‘Fantástico’, mentiras viram verdades). Isso é perfeito para quem tem preguiça de pensar ou não foi educado para o questionamento.

Nossa cultura é alicerçada na religião que, por sua vez, baseia-se em dogmas, que é a arte de propagar, como verdades absolutas, coisas pouco prováveis ou, no mínimo, questionáveis. É o tal do: ‘é, porque é’; ‘é, porque Deus quis’; ‘é, porque está na Bíblia’; ‘é, porque eu vi no Discovery Channel’. E pronto! Tal aceitação passiva dos fatos favorece somente às elites que, desde sempre, morrem de medo que o povo aprenda a pensar.

Com isso, a informação não transforma: apenas mantém eterna a estrutura da desigualdade social. Assim, a comunicação é usada para preservar o poder – e não para revolucionar; posto que a ‘verdade’ – manipulada por omissão ou distorção – jamais é questionada.

Poucos analisam o termo ‘verdade’. O que será isso? Quanto tempo dura a verdade? Existe só uma verdade para cada fato? O que torna verdadeira a informação? Há verdade definitiva fora do saber básico da Física e da Matemática? Existe verdade palpável? Poucos pensam sobre isso.

Como consequência, a originalidade perde importância. Vale a quantidade, em detrimento da qualidade. Todos querem postar; ter ‘pagerank’; acumular visitas, ‘cliques’, centavos. Visam o topo do ‘ranking’. Ainda que esse possa ser manipulado por adolescentes ‘cabeça-oca’, desses que falam ‘tipo-assim’ duas vezes em cada frase.

A recém-nascida ‘blogosfera’ ainda se vê entalada com plágios. Pessoas não postam a fonte porque, em parte, querem assinar o que não escreveram. É a junção da ingenuidade com a idiotice. Alguém copia um texto, insere o próprio nome na ‘res furtiva’ e posta na maior vitrine da Terra: a Internet. Depois, senta e espera elogios, supondo que ninguém verá o ilícito. Seria mais fácil andar pelado e não ser notado, à luz do dia, em plena Av. Paulista.

Muito acertadamente, a ‘Menina Virgem’ disse que, ‘as pessoas não têm responsabilidade jurídica pelo que publicam’. E não têm mesmo. A maioria quer apenas encher o blog de letras e imagens, sem pensar nos possíveis efeitos da notícia. Postar qualquer coisa, todo dia; mover mecanismos de busca, para que leitores caiam de pára-quedas e ‘cliquem’ nos anúncios, gerando centavos via Adsense e afins.

É a força do dinheiro – ainda que em conta-gotas. Poucos se perguntam se o conteúdo tem qualidade. Importa mais saber que, se a postagem possuir os termos ‘Naruto’ e ‘sexo’, gerará mais visitas e ‘cliques’. É o império das ‘tags’. Um vale-tudo, onde poucos se dão conta da importância social do blog, como ferramenta que permite comunicação direta entre os cidadãos. Poucos entendem que seria bem mais útil falar de questões locais.

E há, ainda, a vaidade de ‘querer’ parecer intelectual. Alguns mal se livraram do ‘Ataliba’ e já escrevem sobre ‘mecatrônica’. Esses mesmos são oprimidos pelo patrão, roubados pelos bancos e pelo Estado, mas não entendem o ‘ouro social’ que seria falar sobre os problemas que os atingem diretamente. A originalidade está ao alcance da mão. Mas quantos a querem tocar?

Apesar de tudo, mesmo reconhecendo tantos problemas, vejo como positiva a ‘revolução da palavra’ – representada pelos blogs –, cuja força já fez surgir discurso oficial no sentido de coibir a ‘rede’, impondo-lhe regras e limitando acessos (‘Lei Azeredo’). Isso, sim, preocupa-me bastante.

Gosto de quem se arrisca, expondo idéias próprias. Lamento por quem faz do blog um ‘ferro-velho-de-notícias-roubadas’. Seres humanos podem ser mais que meras máquinas copiadoras.

Daí que, no geral, apesar dos plagiadores, caça-níqueis, bobos-da-corte e marionetes, a blogosfera incomoda muita gente: seja porque diminui a força da mídia institucionalizada; seja porque já permite que se encontre quem desenvolva pensamento original, com bastante coerência.

Essa chamada à originalidade, feita no blog ‘Menina Virgem’, é um claro sinal de que estamos progredindo.

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Leia também:

Alma de Poesia /Gritos Verticais /Natureza Poética /O Poema de Cada Dia /Poética Herética /Raiz de Cem /Sons de Sonetos

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  1. #1 por Luísa em 24 setembro, 2009 - 6:53 pm

    Gostei muito da tua crónica, André.
    Concordo contigo, sem muitos desvios. Para mal dos meus próprios pecados, ou falta de originalidade.
    Ainda não li o artigo inspirador desta crónica, mas vai já de seguida!

    Grande abraço

  2. #2 por Sandra Franzoso em 24 setembro, 2009 - 6:56 pm

    Muito bom, André. Ainda não vi a postagem da Menina Virgem, pois são tantos posts chegando a toda hora que uns acabam se perdendo entre outros. Vou procurar. Acho muito interessante o modo irreverente que ela possui ao abordar os assuntos.
    Realmente, é preciso ter mais responsabilidade sobre o que se insere nos blogs. Procurar atentar ao conteúdo. Qualidade não deve ser confundida com quantidade.
    Eu só posto o que escrevo, meus contos e fico profundamente triste quando vejo pessoas fazendo o mesmo e sendo plagiadas. Até agora, felizmente, não tive esse problema, ao menos que eu saiba.
    Forte abraço!

  3. #3 por edilene em 24 setembro, 2009 - 7:05 pm

    gostei de saber
    bj

  4. #4 por WANDERCHEF em 24 setembro, 2009 - 7:12 pm

    CONCORDO COM VOCE, NÃO É NESCESSÁRIO SER UM NERD PARA SER BLOGUEIRO, MAS COM CERTEZA TEM QUE SE TER CONHECIMENTO DO ASSUNTO POSTADO, POIS SERIA MUITA FALTA DE INCOERENCIA, ALÉM É CLARO DE FICAR SEM SABER COMO RESPONDER AOS COMENTÁRIOS.

  5. #5 por LISONN em 25 setembro, 2009 - 1:07 am

    Saudações!
    Amigo André,
    Sua abordagem em tela retrata perfeitamente o momento em que vivemos nesse estraordinário mundo dos blos e Sites!
    Parabéns pelo excelente texto!
    Abraços!
    LISON.

  6. #6 por falbo em 25 setembro, 2009 - 1:37 am

    André… meu amigo … eu sempre acompanhosuas poesias.. de perto… o seu dom…… é invejavel… e fico triste… por essas pessoas que sempre palgeia seus textos…mas não entrega os pontos não… esse seu texto por exemplo é um despertar .. para quem tem vergonha na cara.. desculpa pela expressão…
    parabéns pelo brilhante texto….!!!!

  7. #7 por Menina Virgem em 25 setembro, 2009 - 2:53 am

    Lobo querido, e queridos todos que leram o que eu escrevi. Não escrevi no sentido recriminatório geral. Minha motivação foi a questão da marionetagem. Ou seja, quando não usamos de um mínimo de critério daqueles que os jornalistas deveriam usar, acabamos fazendo o jogo de grupos organizados, muitas vezes impotentes e, por isso mesmo, organizados na internet. Esse foi o caso que detectei na notícia da “Freira da Cia”. Um exemplo, mas pode haver mais, não?
    Menina Virgem.

  8. #8 por Cris em 25 setembro, 2009 - 9:04 am

    André,

    Sua matéria mostra o quanto há de mediocridade no meio. Infelizmente, somos bombardeados por blogueiros com o perfil copia/cola. Na contramão existem excelentes blogs, de cunho próprio, mesmo com certas limitações, conseguem ser criativos e originais. Para aumentar nossa aflição, parece que a maioria dos leitores preferem o besteirol a uma leitura de qualidade, como se fosse um anestesico para o cotidiano da vida.

    Beijocas

  9. #9 por Mara em 25 setembro, 2009 - 10:37 pm

    André,
    Finalmente vi alguém escrever o que eu pensava a respeito de muitos blogs e não tinha a coragem de expressar-me. Parabéns.

  10. #10 por Rita em 25 setembro, 2009 - 11:30 pm

    André, igual a você, também adoro quando leio algo original na internet. E acho, sim, que todos nós devemos primar por uma blogosfera com mais qualidade.

    Mas você deve estar lembrado: há muito tempo você me disse que o internet era uma grande avenida?

    Pois é!

    É partindo desse princípio, que não tenho mais a ilusão de que aqui, nesse imenso mundo digital (sem fronteiras), vez por outra não vou esbarrar em lixo também. Mas é o preço que temos que pagar, não é, meu querido? Veremos todas as mazelas que antes não víamos: ou porque não nos atingia diretamente, ou porque não tínhamos escolha.

    André, sei bem o que você defende e acredita. Afinal, não é de hoje que acompanho sua luta em favor da liberdade de expressão, bem como sua briga contra plagiadores que, como bem sabemos, por mais incrível que pareça, na maioria das vezes, não são os ditos ‘ignorantes’ e, sim, psicólogos, professores e toda sorte de pessoas sem originalidade e pior, sem caráter, como poderá ver, quem quiser comprovar, lá em nosso álbum de denúncias do Orkut.

    E somente porque eu também acredito e defendo as mesmas coisas que você, André, que vou continuar a fazer a minha parte. Vou continuar a postar a minha arte amadora que, por acaso, não é receita culinária, mas sim, poesia. Embora bem pudesse ser culinária. E por que não? Afinal, também sei cozinhar… e muito bem!

    E farei sempre com responsabilidade, como sempre fiz: repassando o crédito de cada imagem que eu escolher para ilustrar meus poemas. Espero assim, de verdade, estar acrescentando algo de bom a quem queira ler.

    É isso! Parabéns, mais uma vez! Seu texto não somente é original, delicioso de ler e impecável, como também é um belo convite ao bom senso.

    Beijussssssssssssssssssssssss!

  11. #11 por Sissym em 28 setembro, 2009 - 1:01 am

    André, hoje, por acaso, vi tambem a mesma matéria e fiquei doida. Coincidência porque tinha lido, minutos antes, outro ótimo texto redigido por ela. Ela é fantástica. Passa a informação de maneira esplendida.

    Deixei lá o meu longo ponto de vista.

  12. #12 por WebMaster em 3 outubro, 2009 - 6:08 pm

    Congratulations on your blog. Visit me and see a lot about culináriae revenue. http://artedecozinhar.blogspot.com/ Best Regards

  13. #13 por Alexandre em 5 outubro, 2009 - 5:24 pm

    parabéns pelo blog, show de bom…

  14. #14 por Fernanda em 20 novembro, 2009 - 3:48 pm

    Oi !

    Seu blog é bem bacana, e eu já lí matérias bem legais aqui, parabéns !
    Você faz parte do diHITT né ? Pois é, eu estava vendo outras redes sociais, como o Rec6, o Linkto, o Linkk, e aí achei um novo, muito legal, que acho que vai ajudar você á divulgar ainda mais seu ótimo blog.
    O nome do site é PC Chip, o link dele é http://www.pcchip.com.br

    Acho que você vai gostar, viu !

    E mais uma vez, parabéns pelo blog, tá bem legal, adoro !

    Beijo !

    Fernanda

  15. #15 por Robert Shumake em 2 fevereiro, 2010 - 3:25 pm

    I don’t usually reply to posts but I will in this case, great info…I will add a backlink and bookmark your site. Keep up the good work!

  16. #16 por Emerson em 28 fevereiro, 2012 - 12:11 pm

    Olá! Texto inspirador e que faz pensar muito. Será que o que escrevo é realmente original? Mesmo sem querer copiamos algo de alguém. Picasso dizia que copiar os outros é preciso, copiar a si mesmo é burrice. Creio que o segredo de tudo isso está na junção que fazemos dos assuntos. “Sei que uso palavras repetidas, mas quais são as palavras que nunca são ditas?”, depende do modo como organizamos as palavras ou “ideias” alheias, é possível copiar e ser original, mas até que ponto sabemos o que estamos plagiando? Se existisse algum programa ou ferramenta que nos dissesse o que estamos tomando como nosso… se é que já não existe. Enfim, gostei muito do modo como expôs a falta de crítica de nosso povo. Aceitam as coisas de forma muito fácil, ainda mais se foi noticiado pelo “Fantástico”, tomaram a mídia como enciclopédia, a mídia por sua vez pertence aos que detém o poder, dessa forma os poderosos ditam as regras em prol de seus interesses. Mas o fato de pessoas estarem questionando isso tudo já é um passo importante para alguma mudança!

  17. #17 por Piracetam em 7 janeiro, 2013 - 4:39 am

    Vi alguns programas de humoristas do passado: Golias era muito bom. Meu pai falava bem dele – com razão, vejo agora. Ele sabia mesmo fazer a comédia de costumes misturada ao pastelão. Renato Corte Real, Zeloni e Agildo Ribeiro tiveram momentos sensacionais. Costinha era impagável, eu o conheci pelo Youtube. Como piadista, era sensacional. Coisa que os velho show de Juca Chaves também apresentava com esmero. Vi uns programas da TV Pirata. Não sabia que havia sido tão bom. Mais uma vez, tive de dar razão ao meu pai.

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