A ÚLTIMA FRONTEIRA DA HONESTIDADE

– André L. Soares – 19.02.2009 –
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Não faz muitos dias, estávamos eu e meu primo, apreciando as belezas da ‘Praia das Castanheiras’, no centro de Guarapari, enquanto a esposa dele e minha mãe olhavam pequenas lojas. Conversávamos qualquer banalidade quando, perto de nós, eclode acalorada discussão.
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Pelo que entendi, um turista, com sotaque carioca e aparência de classe média, teria dito – em tom de brincadeira, ao menos na visão dele – alguma frase de menosprezo a um vendedor de redes nordestinas. Ofendido, o ambulante ameaçava partir para a briga. Depressa, o gozador saiu de fininho, entrou no carro e partiu, não sem antes dizer outro punhado de coisas para irritar, ainda mais, o pobre homem, que mal dava conta de carregar sua montanha de panos coloridos.
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Infelizmente, durante a alta temporada, essa é uma cena comum em Guarapari. Os turistas, talvez incomodados pela ‘romaria’ de vendedores nas praias da cidade, talvez motivados pela arrogância comum a quem exagera na bebida, acabam por humilhá-los e maltratá-los verbalmente. Outras vezes são os donos dos quiosques a expulsá-los do local, temendo que os ambulantes incomodem seus clientes.
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O que as pessoas não compreendem é que esses vendedores ambulantes – homens e mulheres, em sua maioria entre 15 e 40 anos – vivem, pacificamente, no limite derradeiro que a sociedade lhes permite para ganharem o pão com um mínimo de dignidade.
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São pessoas que – por diversas razões – encontram-se à margem da sociedade. Contudo, estão tentando sobreviver, resistindo à farta tentação do crime. No que pude constatar, vendem: óculos; relógios; redes de dormir; cangas; vestidos; sandálias; cachaça; picolé; espetinhos variados; pamonha, cocadas; côco; água; cerveja; refrigerante; chapéus; camisetas; enfeites diversos; biscoito; pipas; queijo quente; bijuterias; tatuagens; roteiros de passeio turístico; outros apenas catam latas; e por aí vai…
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A ‘Praia do Morro’, em Guarapari, tem cerca de três quilômetros. Esses bravos resistentes que, segundo o jornal ‘A Tribuna’, chegam à casa dos milhares na alta temporada percorrem essa extensão, o dia inteiro, debaixo de sol. Muitos deles carregam mais de cinqüenta quilos nas costas.
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Não é um trabalho fácil. Nem é algo que venda bastante. Há muita concorrência entre eles mesmos. Há, ainda, a concorrência dos quiosques e das lojas. O turista que vem ao Espírito Santo é, em sua maioria, classe média baixa. Portanto, não esbanja.
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Assim, é comum um vendedor ambulante percorrer a praia toda diversas vezes para, ao final do dia, lucrar cerca de dez reais.
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Guarapari, no entanto, não tem mendigos. Nos quatro anos em que moro na cidade, somente uma vez fui abordado por pedinte. Aqui, o que rege a atividade informal é a venda de pequenos supérfluos.
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Talvez o turista não perceba que essas pessoas, iguais a quaisquer outras, têm necessidades básicas, sonho, esperança, família. E, por serem muitos – e ainda jovens –, caso decidissem engrossar as fileiras da bandidagem, Guarapari – onde quase não há crime – logo estaria no rol dos municípios mais violentos do País.
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Mas não. Apesar de tudo, escolheram a difícil tarefa de arrastar quilos e quilos de bugigangas praia a fora, como forma de ganhar a vida. E aqui não vem ao caso discutir a higiene e procedência do que comercializam, porque regulamentar e fiscalizar são funções da prefeitura, cabendo ao consumidor, também, fazer sua parte.
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No todo, eu os respeito. Não posso dizer que sou comprador assíduo de seus produtos – às vezes, um picolé. Mas vejo-os com imensa admiração e simpatia. Nos dias de menor movimento, percebo o cansaço e o desânimo de alguns. Porém, no geral, são educados e divertidos.
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Calado, assisto seu desfile de intermináveis cores e sons, torcendo para que as vendas informais alcancem nível suficiente para mantê-los no campo da decência.
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Esse texto é dedicado a esses homens e mulheres. Eles não vão ler, mas isso não importa. Importante é que você – que me lê agora – entenda e reconheça o valor dessa gente e trate melhor os trabalhadores informais que, porventura, venha a encontrar em suas próximas viagens ao litoral brasileiro.
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Lembre-se que essas pessoas compõem importante resistência social: elas são os soldados que lutam bravamente na última fronteira da honestidade. Se perderem essa batalha, lutarão a próxima em favor do crime.
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Leia também:

Alma de Poesia /Gritos Verticais /Natureza Poética /O Poema de Cada Dia /Poética Herética /Raiz de Cem /Sons de Sonetos

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  1. #1 por nelson em 20 fevereiro, 2009 - 9:54 pm

    muito boa a sua colocação. parabéns

  2. #2 por Ana em 20 fevereiro, 2009 - 9:57 pm

    Acredito que o mercado informal é uma grande chance de sobrevivencia de pessoas carentes,
    sem duvidas isso mostra a honestidade, a necessidade e a fibra do povo brasileiro, existe crime sim, mas este é feito pela menoria.
    gostei muito do seu post.

  3. #3 por ismaelita em 20 fevereiro, 2009 - 11:17 pm

    Trabalhadores informais ,não tem só em Garapari mas no Brasil inteiro e creio que o número irá aumentar consideravelmente devido ao desemprego.
    Em São Paulo estão por toda parte não só no litoral mas nas ruas , no transito e nos meios de transportes. São trabalhadores que devem ser respeitados porque são seres humanos que trabalham com dignidade para o sustento de suas famílias.

  4. #4 por Francisco Castro em 21 fevereiro, 2009 - 10:27 am

    Olá, André! Você foi muito feliz nessa crônica que eu assino em baixo sem nenhuma ressalva. A questão da honestidade não se resume apenas em o indivíduo ser ladrão, fazer falcatrua ou outras coisas do gênero. Agressões como as relatadas por você são claramente caracterizadas como desonestidades. Pessoas que praticam tais atos não dignas de qualquer consideração, respeito ou amizade.

    Esses agressores deveriam ser presos, processados e pagarem pesadas multas para esse coitados que tentam ganhar a vida honestamente por meio de seu trabalho, coisa que não acontece com boa parte desses marginais.

    Abraços

    Francisco Castro

  5. #5 por Philo Philos Pachem em 23 fevereiro, 2009 - 7:50 pm

    Adorei a leitura e o ponto de vista.

    Saudações joviais e Paz

  6. #6 por Lina Maria Chaves Franzin em 25 fevereiro, 2009 - 5:25 am

    Eu tb respeitos os trabalhadores informais,as vezes é um trabalho até humilhante e cansativo, mas eles estão lá firme e fortes e a grande maioria são nordestinos que deixa sua terrinha e vem tentar viver aqui no sudeste, no sul.
    Infeslizmente vejo muitos preconceitos contra essas pessoas,que trabalham duro para poderem “sobreviver”
    ótima sua crônica.
    Abçs
    Lina

  7. #7 por PAULO em 25 fevereiro, 2009 - 9:45 pm

    Não me canso de te parabenizar, pessoas como você fazem a diferença, sua cronica é excelente reflexão para os dias que se seguem, a ultima fronteira da honestidade é a cara do povo brasileiro. Infelizmente estamos perdendo essa batalha, perdendo para pessoas egoistas, sem escrupulos e que sentem prazer em humilhar os outros.
    O que será que mantém esses guerreiros de pé, mesmo diante de tanta dificuldade… acreditam que viver é uma dádiva de Deus e são felizes com o pouco que tem ( muitos só tem o trabalho honesto ) . Enguanto outros esbajam e nunca ficam satisfeitos, sempre querem algo mais, algo que nunca os preenche… espero que um dia encontrem algo divino e se tornem pessoas melhores
    Abraços
    Conselho ” Leia também alguns textos Bíblicos , há textos ótimos e confronte-os com escritores modernos e consagrados”
    As cartas do apostolo Paulo por ex.: é poesia pura .

  8. #8 por Rita em 28 fevereiro, 2009 - 12:05 am

    Meu querido, você está de parabéns por essa belíssima crônica.
    Quanto mais eu leio mais eu adoro.🙂
    Eu não entendo porque algumas pessoas, não conseguem ter um tiquinho que seja, de respeito ao próximo.
    Parece haver uma nescessidade de humilhar, de maltratar aqueles, que já sofrem tanto, pelo simples fato de não terem tido uma melhor oportunidade na vida.
    Eu vejo esse desrespeito acontecer também aqui no Rio, já vi em muitos lugares e sempre fico indignada.
    Juro que tenho vontade de falar, mas o mundo anda tão violento, as pessoas tão agressivas que é até um risco a gente se manifestar.
    Mas enfim…. que suas palavras, essa linda homenagem a esses trabalhadores, sirvam também para clarear a mente das pessoas né.

    Amei também as fotos viu.🙂 LINDAS!
    Beijussssssssssssssssss

  9. #9 por Mike em 2 março, 2009 - 4:35 pm

    Just passing by.Btw, you website have great content!

  10. #10 por berenice em 4 março, 2009 - 1:42 pm

    André, como na sua cidade, como em todo o nosso país, aqui também temos um grande comércio infomal de pessoas honestas que tentam sobreviver. Sobreviver às péssimas condições, à falta de oportunidades, às injustiças. Como você mesmo disse, são pessoas que escolheram o caminho árduo do trabalho e não a facilidade do crime.

    Não podemos generalizar. Um exemplo, nem todos que moram na favela da Rocinha são criminosos. Mais de 70% são pessoas honestas que estudam, trabalham e lutam por uma vida melhor. Mas as pessoas têm uma predisposição ao preconceito, como isto que você presenciou. Acredito que generalizar gera injustiça e a injustiça é um mal cruel pra qualquer pessoa, independente de classe social.

    Achei de grande importância este seu texto.

    Abraços.
    Berenice

  11. #11 por agrj em 5 março, 2009 - 11:47 am

    Olá,

    me desculpe por utilizar este espaço para este tipo de solicitação, porém não vejo outra maneira de expressar minha indignação.

    gostaria de solicitar sua ajuda na divulgação do post sobre as mentiras do governo (relacionadas ao crétito) que escrevi em meu blog:

    http://agrj.wordpress.com/2009/03/05/mentiras-que-o-governo-conta/

    Se for possível, publique, divulgue, passe para frente, o que for necessário para atingirmos a maior quantidade de gente possível!!!

    vamos fazer disso um grande manifesto e tentar chegar a (grande) mídia para ver se algo de efetivo é feito.

    obrigado pela ajuda.

    []s

    Dinho

    PS.: meu blog não é comercial, e não tenho intenção de ganhar dinheiro com isso. é somente uma pessoa indignada com o que está acontecendo!!!

  12. #12 por Ester em 6 março, 2009 - 12:19 pm

    Olá!!

    Passei para
    lembrar-lhe que,

    Segunda-feira dia 09
    é dia de Blogagem Coletiva!

    Sucesso para todos nós!

    Abs,

  13. #13 por Filipe em 30 março, 2009 - 8:59 pm

    Não gosto das cartas do apostolo. Ele dizia, “se tiver mulher viva como se não tivesse”.

  14. #14 por Filipe em 30 março, 2009 - 9:06 pm

    E completando. A praia do morro é sensacional, principalmente á noite, no qiosque 16.

  15. #15 por Noilla em 18 agosto, 2010 - 8:06 pm

    Amigo.vc como sempre inteligente e sensível..admiro todo tipo de trabalho., informal ou não., faço questão de ao menos cumprimentá-los ., desej. um bomdia..pois se mais pessoas trabalhassem como eles., esse país nao seria poluído de ladrões!Abrçs.

  16. #16 por J. Carlos em 2 março, 2012 - 12:34 pm

    Estimado André Soares, Gostei de ler este seu Artigo, e dou-lhe os meus sinceros Parabéns pela defesa que toma em favor desta gente simples e simpática com quem, eu e minha esposa, tivemos a feliz oportunidade de conhecer, e até com eles conviver e dialogar, quando estivemos de férias nas bela praias de Natal.
    Tem toda a razão quando diz que “… essas pessoas compõem importante resistência social: elas são os soldados que lutam bravamente na última fronteira da honestidade. Se perderem essa batalha, lutarão a próxima em favor do crime.”.
    Afinal essas pessoas, são Seres Humanos que sofrem, que amam. e que também choram… porque nada venderam e nada levam para comprar um pouco de pão que seja, para os seus filhos comerem.
    Bem-Haja André Soares pelo tempo que toma na Defesa dos que sofrem.
    O meu Fraterno abraço… cá deste lado do mar.
    J. Carlos

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