A SEGUNDA GUERRA-FRIA

A SEGUNDA GUERRA-FRIA
– André L. Soares – 10.01.2009 –
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Quem já se deu conta do terror que as notícias representam em nossas vidas? A mídia se constitui verdadeira máquina de gerar tristeza e desânimo. E, embora não seja exatamente a causadora da notícia, em geral ela a deturpa, vendendo a nós uma realidade bem mais monstruosa do que realmente é. O intuito disso é nos manter quietos, assustados, incapazes de exercer a liberdade necessária ao pleno progresso pessoal e coletivo.

O ano de 2009 se inicia com a terrível combinação de mais conflitos armados no Oriente Médio e crise econômica mundial. Porém, em relação à crise, pelo menos na dimensão em que a mídia tenta vendê-la a nós, não acredito em seu maior redimensionamento.
Claro que, em um mundo onde o maior comprador (EUA) desenvolve um esforço de guerra que já dura mais de seis anos, a economia não está totalmente sã. Isso é fato. Para manter as tropas no Golfo, os norte-americanos acabam deixando de importar alguns produtos, afetando negativamente as balanças comerciais de diversos países.
Contudo, em grande parte, a atual crise financeira é gerada por um processo que chamo de ‘segunda guerra-fria’, onde as informações manipuladas fazem com que os mercados oscilem. Nessa dança, há algumas poucas pessoas (físicas ou jurídicas) que, no curto prazo, ficam cada vez mais ricas; enquanto que a maioria herda os efeitos danosos dos boatos e do tráfico de informações governamentais.
Assim como a ‘primeira’, a ‘segunda guerra-fria’ tem por objetivo manter a maior parte dos cidadãos em pânico. Isso faz com que não se arrisquem no empreendedorismo, bem como não questionem a reduzida massa salarial. Por conseguinte, enfraquece-se o movimento sindical em todo o globo terrestre, diminuindo a capacidade de negociação dos trabalhadores; além de minimizar, para as grandes empresas, o risco de surgimento de novos concorrentes.
Provavelmente os maiores prejudicados sejam os trabalhadores dos países emergentes, como China, Índia, Paquistão, Brasil, México, entre outros, para onde tem se mudado, nos últimos anos, parte considerável da indústria pesada, proveniente dos países ricos. Nessas economias emergentes, os trabalhadores, com medo do desemprego prometido pela crise, agarram-se a seus empregos, mesmo quando a média salarial oscila ao redor dos 30 dólares ao mês (como é o caso, por exemplo, da China).
No entanto, de modo empírico, arrisco-me a dizer que a crise é superestimada. E isso não é por acaso. Peguem a lista dos cem maiores investidores nas cinco maiores bolsas do planeta e, provavelmente, os ‘pais da crise superdimensionada’ estarão lá.
Tenho analisado a forma como a mídia ‘vende’ a crise. Tanto as emissoras brasileiras quanto a CNN e a BBC usam a mesma estratégia: relacionam a saúde da economia ao movimento das principais bolsas de valores, aproveitando-se que a maioria não conhece minimamente o funcionado dos pregões. Assim, basicamente a manipulação da notícia se faz pelo uso mal intencionado da nomenclatura. Dessa forma, uma ‘queda’ na Bovespa é anunciada como ‘prejuízo’. E sabemos que não é bem isso.
O movimento de uma bolsa é somente a variação das negociações do dia, comparada ao pregão do dia anterior. Então, ‘queda’ nada tem a ver com ‘prejuízo’. Se em num dia se negociou quatro bilhões e, no outro, três bilhões, houve uma retração de 25% no mercado de ações. Apenas isso. E é normal. Afinal, se os investidores fazem grandes negócios hoje, é de se esperar algum ‘freio’ amanhã’ (porque dinheiro não sai de sacos sem fundos).
Além disso, o índice diário da bolsa de valores é somente a média entre o total das negociações. Os jornais brasileiros não explicam, por exemplo, que as ações da Petrobrás raramente sofrem quedas (o que se dá não em função da bolsa em si, mas das constantes novas jazidas que aquela estatal descobre, tornando-a mais rentável e, portanto, um investimento mais atraente, aos olhos dos investidores).
Tudo é noticiado para fazer parecer que as bolsas são a única fonte de renda das empresas. Tudo é anunciado para fazer parecer que as empresas são totalmente dependentes das bolsas de valores. E isso também não é verdade. As empresas têm por finalidade gerar e comercializar bens e serviços. A maioria delas sequer possui papéis nas bolsas (só as ‘Sociedades Anônimas’ têm ações à venda na bolsa de valores).
Ninguém explica, também, que o Brasil se tornou um pouco mais resistente às variações do mercado internacional porque, nos últimos dez anos, conseguiu fortalecer o mercado interno. Antes, se não exportássemos o produto encalhava. Agora é diferente. O mercado interno tem considerável poder de consumo, o que permite suportar por mais tempo as oscilações externas.
Esse anúncio exagerado da crise só beneficia a alguns poucos grandes investidores. Provavelmente todos ligados a grandes instituições financeiras.
Não creio em uma crise capaz de ‘quebrar’ a economia mundial. A menos, claro, que o esforço de guerra do comprador mais poderoso (EUA) se alongue por muito mais tempo. E, ainda assim, tenho minhas dúvidas.
A ‘segunda guerra-fria’ é, portanto, uma estratégia, baseada na manipulação de informações acerca do mercado financeiro, com duas frentes: de um lado, possibilita que alguns poucos investidores internacionais obtenham grandes ganhos no curto prazo; de outro, inibe as novas ações empreendedoras.
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  1. #1 por Andre leite em 10 janeiro, 2009 - 1:24 pm

    esta crise ou pseudo-crise para os que nada tem como eu nao afeta. talvez uma grande quebradeira me desse uma nova chanche. para mim somente um caos economico onde os homens voltassem a ser valorizados pela sua capacidade e nao pelo poder de puxar o saco me ajudaria…mas tenho que lutar…mesmo ja sabendo o resultado.

  2. #2 por ismaelita em 10 janeiro, 2009 - 4:37 pm

    Excelente artigo, nada amis acrescentar

  3. #3 por Victor S. Gomez em 10 janeiro, 2009 - 4:50 pm

    Esse é um problemas dos mais sérios, pois é um confronto muito antigo entre potências. Espero que se resolva logo. Abraços

  4. #4 por jotabe em 10 janeiro, 2009 - 8:31 pm

    André

    A sua analise está correta, toda a economia global é muito frágil e está sujeita sempre as oscilações do mercado virtual controlado pelos mercados de ações e mercados chamados “futuros”, onde se joga com tudo, inclusive com a fome. Mas, infelizmente estas oscilações mostram o quanto ainda somos dependentes, apesar do mercado interno está mais forte, ele é limitado e a demanda por certos produtos não será absorvida. Realmente esperamos que a economia mundial não demore muito para reagir, pois quanto mais tempo passar, pior será.
    Quanto a guerra fria, não deixa de ser.

  5. #5 por Beth Cruz em 11 janeiro, 2009 - 1:35 am

    Pelo visto, além de Poeta brilhante, é também um economista lúcido e otimista. Verdadeira sua análise, há muita especulação por trás dessa badalação da crise pela mídia.
    Abs

  6. #6 por Drauzio em 12 janeiro, 2009 - 10:29 pm

    Precisamos fazer um boicote mundial por todo e qualquer produto ou empresa de israel pelas atrocidades e covardia que o Governo Israelense vem cometendo contra a população civil na Palestina. Se os dirigentes das Nações fossem pessoas íntegras, os políticos e os militares israelenses seriam julgados, e condenados, por crimes contra a humanidade. Um abraço. Drauzio Milagres.

  7. #7 por piracetam em 19 novembro, 2012 - 1:46 pm

    É difícil saber a real situação do mercado imobiliário brasileiro. Sei que minhas opiniões são um tanto pessimistas, mas prefiro adotar essa postura. Ser pessimista, às vezes, é uma virtude: se impede que muitas vezes o investidor ganhe muito dinheiro, pode impedir que ele perca muito e seja obrigado a sair do jogo. Isso é especialmente verdadeiro no mercado imobiliário, para o qual a maior parte das pessoas destina a maior parte de suas economias. Ser pessimista também é importante em um cenário em que as informações são tendenciosas, apontando sempre para o crescimento rumo ao infinito do setor. Mas acredito que os pontos levantados devem ser enfrentados seriamente pelas autoridades políticas brasileiras, ao menos para amenizar o crescimento do setor imobiliário com base em premissas mais sólidas e sustentáveis. Ao contrário do que muitos leitores talvez pensem, eu não estou torcendo por uma crise no mercado imobiliário, mas apenas levantando algumas hipóteses e questões que precisam ser levadas a sério!

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