JOGOS ELETRÔNICOS GERAM MAIOR VIOLÊNCIA?

JOGOS ELETRÔNICOS GERAM MAIOR VIOLÊNCIA?

– André L. Soares – 06.08.2008 –

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A gentil Sônia Regly, do ‘Compartilhando Letras’, escreveu um belo ‘post’ acerca da possível influência negativa que os ‘games’ exerçam sobre as crianças, aumentando-lhes a tendência a serem violentas. Porém, embora respeitando opinião contrária, não creio que haja relação entre a violência infanto-juvenil e jogos para computadores.
Penso que, quando se fala em violência infanto-juvenil é preciso entender que essa é basicamente ‘masculina’. E, nesse sentido, sempre houve. Qualquer homem que tenha vivido a infância antes dos anos 80 sabe que isso é verdade. Presenciei e participei de muita briga durante brincadeiras que, a princípio, pareciam inocentes.
Como bem dizem os psicólogos, jovens precisam se afirmar, encontrar suas ‘tribos’, definir territórios, chamar a atenção sobre si, contestar ‘verdades’ das gerações anteriores. Os homens não fazem isso de modo muito diferente dos lobos. Nós nos enfrentamos. Testamos limites e somos testados. Infelizmente, é assim que o jovem consegue sua primeira dose de respeito.
Entre nós – os machos –, a docilidade das brincadeiras acaba muito cedo. E isso não mudou. As educadoras dos jardins de infância – de hoje ou de ontem –, sabem que não podem descuidar, ou os garotos se machucam uns aos outros. Isso quando não machucam também as meninas.
O fato é que, mesmo agora, os jogos são, em essência, voltados a meninos. Sua finalidade é prepará-los para a competitividade no mundo capitalista-machista. E isso tem sido assim, mesmo antes dos telejogos. Sejam com bolas de gude, futebol, ‘War’ ou ‘GTA’, o estímulo à violência deriva do estímulo à competitividade. De modo velado, os jogos são um treinamento para a vida adulta. Provavelmente, Shakespeare diria hoje que, ‘em uma partida de ‘futebol de rua’, há muito mais coisas em jogo do que pode supor nossa vã filosofia’.
A diferença básica entre o ‘ontem’ e o ‘agora’ está em que, há algumas décadas, havia, em casa, mais mães, tias e avós, vigiando as crianças. Isso, até certo ponto, impedia que os embates entre os jovens chegassem ao extremo.
Digo ‘até certo ponto’ porque, raro é o homem que não vivenciou, na adolescência – sem que os pais soubessem –, brigas durante atividades consideradas ‘inofensivas’, como soltar pipas, por exemplo. Mesmo jogos de mesa e tabuleiro, entendidos como ‘pacíficos’, geravam discussões que, muitas vezes, terminavam em pancada, ou, no mínimo, em imensurável zombaria.
E por que isso? Porque, no caráter lúdico da competitividade, aprendia-se cedo a respeitar vencedores e a hostilizar perdedores. Ao se aclamar ou depreciar uns e outros, muitos reagiam e, assim, formava-se a confusão. Havia quem não aceitasse a derrota, tentando burlar as regras (o que, no âmbito adulto, equivale ao crime). O sucesso da fraude dependeria, quase sempre, da força física do fraudador.
Para entender melhor os aspectos sociológicos dos jogos e brincadeiras infanto-juvenis, uma boa opção é assistir filmes como ‘Leolo’ (1992, dir.: Jean-Claude Lauzón) e ‘A Guerra dos Botões’ (1962, dir.: Yves Robert).
Então, sabendo-se que a violência vai estar presente em qualquer jogo, a questão principal é identificar em qual contexto a criança estará exposta a riscos mais sérios.
Na minha infância – e lá se vão mais de vinte anos – tudo era decidido ‘na mão limpa’ ou ‘no braço’ (como se falava à época). Às vezes um garoto pegava paus e pedras. Mas isso, naquele tempo, era admitir fraqueza e, embora seu oponente corresse, quem se armasse desses recursos tornava-se um fraco frente os demais.
Muitas vezes, os pais nem ficavam sabendo das brigas porque, naquela época, também era considerado sinal de fraqueza contar pra ‘pai’ e ‘mãe’ o que acontecia na rua. Além disso, havia pai que, se soubesse que o filho apanhou na rua, acabava por aplicar-lhe outra surra ainda maior em casa.
Hoje é diferente. As ruas oferecem grande perigo. A violência direta entre crianças e adolescentes recebeu o adendo das armas. Qualquer desentendimento resulta em morte. O nível de tolerância é outro: toda voz mais alta é desrespeito imperdoável. Então, para a segurança das crianças, melhor que o contexto de violência seja virtual, diante da televisão e em parceria com ‘playstations’ e ‘nintendos’.
Os fabricantes de jogos eletrônicos não inventam a violência. Apenas seguem as tendências do mercado de entretenimento, em conjunto com o cinema e a televisão. A violência nos filmes assumiu configuração bem mais significativa nos últimos quinze anos. Os videogames acompanham essa linha. Senão não vendem. Paralelo a isso, tem-se, em casa, a menor presença dos pais junto aos filhos.
A combinação desses fatores leva a um contexto que, erroneamente, faz parecer que as crianças de hoje sejam mais violentas que as de ‘ontem’. Elas apenas estão menos vigiadas e sofrem maior apelo capitalista. Daí um jogo onde ganha quem roubar mais carros ser mais popular que outro, cujo objetivo seja construir cidades perfeitas. Afinal, ninguém conhece cidades perfeitas. Mas todos sabem o que é roubo de carro.
Vale dizer ainda que, talvez – e somente ‘talvez’ –, parte da diferença esteja na ‘queima de energia’: quando, há algumas décadas, as brincadeiras eram essencialmente físicas, o comum excesso de energia das crianças e adolescentes era gasto no decorrer das atividades. É possível que os videogames, por exigirem menor esforço físico, não funcionem como ‘válvulas de escape’ satisfatórias à enorme energia dos jovens.
Há que se considerar também que, nos jogos eletrônicos, a maior incidência de movimentos repetitivos, aliada ao excesso de luzes e sons, possa, de alguma maneira, afetar o ‘estado de nervos’ dos usuários, provocando surtos de irritação. Mas não creio que isso seja suficiente para se afirmar que tal entretenimento eleve os níveis de violência.
De forma incontestável, a violência é fator presente em toda a história humana e, com raras exceções, é exclusivamente masculina. Em âmbito maior, a violência que hoje se vê, configurada nas guerras, na má distribuição da renda, na corrupção estatal, na exclusão social que redunda na guerrilha urbana etc., ainda é essencialmente ‘orquestrada’ por homens que, na infância, não tiveram videogames.
Tentar atribuir aos jogos eletrônicos as novas tendências da violência infanto-juvenil, é negar o óbvio: a violência persiste e se eleva, como evolução natural do contexto de injustiça, exclusão e crescente abandono que, hoje, as novas gerações recebem de nós – atuais adultos.
Há que se supor, também, que hoje a violência dos jovens decorra, em parte, da nossa ‘violência-passiva’ – essa que deixamos por herança –, quando adotamos a postura covarde que permitiu a morte das ideologias humanitárias que se revigoravam nos anos 60 e 70, em prol de um neoliberalismo individualista e competitivo ao extremo, que prometia maior poder de consumo – aos vencedores.
De certo modo, o novo contexto socioeconômico afetou duramente a estrutura da instituição familiar: cada vez deixam-se mais crianças aos cuidados de estranhos, quando não sozinhas; cada vez mais, reforça-se o modelo individualista de viver. Tudo isso tem um preço, a ser pago independente de haver, ou não, videogames.
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  1. #1 por Sonia Regly em 7 agosto, 2008 - 12:43 am

    André,
    Excelente post, bem escrito, bem fundamentado.Concordo que o jovem precisa se afirmar, concordo que nossas brincadeiras também tinham a competititividade, as brigas.Mas não eram como hoje, parecem que os jogos eletronicos querem formar marginais, bandidos, e esse pensamento ruim penetra na cabeça do jovem fazendo-o agis assim, como agem hoje. Por quê eles são tão violentos??? Porque só pensam em matar, se vingar, acho que isso faz mal para a mente do jovem.Mas cada um com sua opinião.Eu vejo no dia a dia o reflexo desses j ogos, numa Escola de 1200 alunos a maioria se estapeando, um querendo comer o outro.Dá vontade de sumir!!!! Quando vc tiver filhos e ele começarem a mudar o comportamento, vc vai sentir o que estou falando.

  2. #2 por Sonia Regly em 7 agosto, 2008 - 12:44 am

    Mas gostei do seu Post.Acho que as opiniões divergem, cada realidade é uma realidade.

  3. #3 por Sonia Regly em 7 agosto, 2008 - 12:48 am

    Leia essa matéria e depois vc me conta:
    A Ira de uma Criança Viciada Em Videogame
    http://video-e-filme.blogspot.com/2007/10/ira-crianca-viciada-videogame.html

  4. #4 por Lucia em 7 agosto, 2008 - 11:48 am

    André:

    Li a postagem da Sonia e depois, claro, vim ler a sua.
    Concordo em grande parte com o que você diz. Uma das coisas que falou me chamou atenção, em especial. Você diz, mais de uma vez, que a violência parece estar associada mais aos meninos, tanto nas brincadeiras quanto na questão dos jogos. Minha experiência profissional me permite dizer que isso não é verdade; apenas as mulheres, talvez por questões culturais, não demonstrem tão abertamente
    seu lado violento. No entanto, a violencia e crueldade sutis são tão ou mais devastadoras do que aquela que é explicita, escancarada. Ouso dizer, até, que por não lhes “ser permitido” ser violentas, muitas mulheres desenvolvem técnicas de crueldade que são assustadoras.
    Como você, gosto de um tema polêmico, e se quiser trocar idéias sobre este ou qualquer outro, eu gostaria muito.
    Abraços

  5. #5 por Sonia Regly em 7 agosto, 2008 - 8:56 pm

    André,
    Complementei a postagem de ontem, acho que agora está mais esclarecido.Passe por lá e deixe sua opinião.

  6. #6 por Sonia Regly em 7 agosto, 2008 - 8:56 pm

    Seu Post ficou muito legal!!!!Gostei!!!!! BJS

  7. #7 por Sonia Regly em 7 agosto, 2008 - 9:11 pm

    Menino!!!!!
    Vc deveria me visitar mais vezes, amei seu comentário, muito inteligente, com os pés no chão.Obrigada!!!! É uma grande honra t~e-lo como amigo.Obrigada pela ajuda.

  8. #8 por Flavinho em 8 agosto, 2008 - 8:33 pm

    Buenas Vivente

    Topas Parceria?

    Abração
    Flavio
    http://copicola.blogspot.com

  9. #9 por vcfazobr em 1 setembro, 2008 - 10:42 am

    Oiii!!!
    acredito que as vezes a mídia exagera transmitindo perversidade demasia e ensinando o caminho
    para alguns jovens,sim.
    Porém como vc disse o sexo masculino tem esse costume de fazer brincadeiras agressivas,cabe aos pais dar o limite da brincadeira e orientar para que isso não se torne uma tragédia futuramente
    Bjs…bye!!!

  10. #10 por ufc 96 betting em 28 fevereiro, 2009 - 8:27 pm

    Interesting article, i have bookmarked your blog for future referrence

  11. #11 por kelly em 9 setembro, 2009 - 9:13 pm

    pq os evoluirao tanto

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